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Apartheid de consumo:
Muita gente (talvez todos os que lêem esse texto agora) não depende de apenas um salário para viver. Muitos até não dependeriam do salário que ganham para ter bem-estar. Por isso a gente pensa pouco (só nessa época) nos pais de família que receberão apenas os R$ 260,00 por mês. É um desrespeito. Ainda mais na nossa sociedade de consumo.
O Brasil não está preparado pra uma das duas coisas: salário indigno e sociedade de consumo. Ou aumenta o salário, ou cria uma política ética para aquisição de bens tanto duráveis quanto de consumo. Como é tomado de assalto por tudo que é anunciado, nosso trabalhador sente-se mais frustrado por não garantir o sustento de sua família. Com apenas contas e contas chegando e com valores altos, não pode sequer garantir a moradia. E vem a frustração e junto o abalo de sua dignidade. Ele acaba de ser segregado.
Não é das coisas da moda que estou falando. O mundo mudou e quem não se adequar quebra a cara mesmo. Não é difícil imaginar quantos casos de pessoas que caem na marginalidade ou entram pro vício da bebida que começam assim. Segue-se violência doméstica e pronto está desgraçada mais uma família. Justifica? Claro que não. Não é por conta disso que deveriam cair no crime e no vício. Vejam que estou considerando o cidadão de bem que apenas quer uma oportunidade. Mas a oportunidade está na aquisição do bem...
Vinte reais de aumento representa um salário de US$ 88,30. Menos de 3 dólares por dia. Se ele gastar 5 reais por dia com moradia, 3 reais por dia com transporte, 10 reais por dia com comida, 12 reais por dia com saúde, 6 reais por dia com luz, telefone e gás e 4 reais por dia com diversão, apenas nesse primeiro dia ele gastou 40 reais. Ou seja o novo salário mínimo dá pra viver COM O BÁSICO por 6,5 dias. E foi esse trabalhador (e eu) que colocou o Lula na presidência. Mas os que o viam como o Dom Sebastião, o Jesus Cristo que vinha nos salvar está dando de cara com um homem que chegou ao poder por atender não aos interesses populares, mas interesses políticos.
E enquanto isso tudo sobe. E a dignidade, desce. Pensem nisso.
Consumado por Daniel às 12:51:43 PM
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Cultura inútil: teoria do escorpião e do touro.
Qualquer pessoa, qualquer pessoa mesmo do Sudeste e Sul do Brasil conhece alguém que nasceu em Abril ou Novembro. Não é que todo mundo não conheça alguém que nasceu em cada mês. Mas é um fenômeno digamos... mais raro, um nascido em Setembro ou Julho ou Junho. Mas em Abril e Novembro é fatal: todo mundo conhece pelo um de cada.
Novembro justifica-se: Nove meses antes era Carnaval, alala-ô pra cá, alala-ô pra lá e pronto! Lá está o feto esperando o finalzinho do ano. Reparem como vocês conhecem gente do signo de Escorpião por aí... alguns, filhos de pais separados por conta de serem “frutos do carnaval”.
Abril é um outro caso e acho que envolve mais gente nascida do que em Novembro: Nove meses antes era Julho! Friozinho, época de agarramento de vários papais e mamães por aí. Aqui no Sul/Sudeste onde o clima é mais temperado é onde ocorre mais filhinhos fecundados. São geralmente do signo de Touro e podem ser nascidos em Maio também.
Eu sou filho nascido no mês de Abril. A Dani, no mês de Novembro (embora sagitariana). Somos a própria face do exemplo que dei aqui em cima (mas nossos pais são muito bem casados, graças a Deus). E conhecemos muita gente que nasceu nesse período. Mais do que os que nasceram em meses como Fevereiro, por exemplo. Isso não dá nem pra ser teoria, não dá nem pra ser curiosidade. É apenas uma observação minha.
Mas como ainda não descobri quem não goste de cultura inútil, de repente alguém começa a analisar a lista de aniversário dos amigos.
Consumado por Daniel às 10:29:57 AM
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Qualidade e quantidade:
Ontem passou o filme “A Praia” e vi alguns pedacinhos dele. Não sei se veria ele todo novamente, faz pouco tempo que eu assisti e mesmo assim porque a Dani disse que eu ia gostar muito por ter muito a ver com a vida de mochileiro. Me arrisquei, adorei e ratifiquei impressões que eu tenho a respeito de qualidade e quantidade. Não sei quem de vocês ainda não assistiu por isso não cabe aqui eu ficar contando como termina ou como se desenvolve o filme. Apenas uma parte dele, a parte interessante: o conceito em que o roteiro foi moldado.
Em determinada altura do filme a personagem principal vai até Bangcoc, na Tailândia e vê vários turistas se esbaldando como se fossem cânceres da maneira como se deve aproveitar uma viagem. Muitas vezes um lugar é paradisíaco e quando a industria do turismo descobre, transforma o local num “resort” e a qualidade é destruída pela quantidade. É invadida e apenas quando aquele lugar sair da moda é que tudo pode voltar a ser bucólico novamente. Claro que com várias cicatrizes.
E o mesmo acontece com pessoas e com meios de comunicação. Por isso é importante selecionar sempre bem as pessoas com quem nos relacionamos. E não digo seleção no sentido de um pai que fala isso para os filhos. É necessário estar com gente que acrescente algo. Não com turistas que aparecem na nossa vida e depois sequer lembrar nosso nome quando saímos de moda. Muita gente se afunda em vícios quando é rejeitada. É nossa versão para as cicatrizes do turismo.
Os blogs atualmente estão na moda. Tenho dado sorte ao ler alguns por aí que compensam a leitura. Mas tem alguns que você chega a sentir vergonha pela pessoa que está escrevendo aquilo ali e sobre determinado assunto. Só escreve porque é moda. Não é porque tem 15, 16 anos. Ninguém é burro por ter mais ou menos idade. A burrice é algo que acompanha quem não acrescenta nada. Claro que por ser moda criam-se “blogs-resorts”.
Eu ainda consigo selecionar um pouco (se está lendo isso, sorria!) por ser minha filosofia a de que qualidade é melhor que quantidade. Não me adianta ser pop se ninguém me escutar... melhor ser um blog Lado B ou mesmo Lado C e saber que quem se arrisca a interagir por aqui está realmente interessado no que eu escrevo. Assim como eu estou interessado pelos textos dos blogs que leio por aí.
Para concluir, a moral da história é: selecionar é escolher quem acrescenta algo útil na sua vida. Independente de qualquer outro fator.
Consumado por Daniel às 10:05:53 AM
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O ônibus:
Acredito que todo cientista social devesse tomar uns seis ou sete ônibus por dia. É por dentro dos ônibus que passam as pessoas mais envolventes, mais preocupadas, mais descaradas, mais espremidas, mais atrasadas, mais sem dinheiro e conseqüentemente mais sinceras de uma cidade. Apesar do aspecto frio da maioria delas, sempre com a cara fechada e sem olhar para os lados, pelo menos uma vez na vida todo mundo passa por algo diferente dentro de um ônibus. Seja barraco, pedintes ou assaltos.
Os carros há muito tornaram-se locais impessoais. Os táxis igualmente impessoais já que não é sempre que se dá a sorte de se tomar um com um motorista que goste de conversar... Eu já dei sorte de pegar uns motoristas engraçados, mas é mais difícil. Claro que é mais seguro que andar de ônibus. Mas este afastamento é parcela considerável na violência urbana em geral, inclusive nos ônibus.
Mesmo mais perigoso nada se compara aos ônibus em matéria de gente diferente. Talvez o metrô... esse primo rico dos ônibus que apenas vive nas grandes cidades e que não deixa de ser uma extensão desse. Teve aglomeração humana, fica engraçado. Quem nunca pegou uma conversa de ônibus pela metade?
Já escutei casos de mãe prometendo a filho que ex-marido dela ia ter que dar o apartamento pra ele, já escutei o caso de uma outra que estava tendo um caso com um homem do escritório dela porque não queria ser uma “segunda mãe” do marido, já vi homem chorar segurando celular porque acabou de brigar com a namorada... muita coisa.
Quem nunca deu esmola em ônibus? Quem nunca escutou a mesma história várias vezes sobre os sete irmãos doentes e acabou se sensibilizando e dando a esmola? Uma vez entrou um rapaz tocando aquele instrumento de sopro boliviano e tocando “Hey Jude” e pedindo grana. Outra vez era um tocando um arcodeão, outra vez mais era uma senhorinha vendendo Halls... de 10 em 10 centavos eu já devo ter dado por volta de R$ 100,00 em ônibus. Talvez até um pouco mais.
Todo mundo precisava ter mais tempo pra reparar nas outras pessoas dentro dos ônibus sem passar a idéia de que quer assaltar a outra. A desconfiança, sempre ela, afasta as pessoas uma das outras tornando-as frias. E afasta justamente no lugar onde as mais variadas “espécies” humanas escolhem ficar juntas: o mesmo espaço físico chamado ônibus
Consumado por Daniel às 10:58:55 AM
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Filmes & Livros:
Foi em um dia qualquer do finalzinho do inverno de 2001. Foi quando fiz meu primeiro blog mais o menos. Um que sequer existe mais... nem a URL vale mais nada. Foi nesta época que comprei um livro que logo que encontrei na livraria me encantou: "Diários de Motocicleta", escrito por Ernesto Guevara de la Serna. Era barato, custava R$ 24,00 na Siciliano (um dos meus lugares preferidos de São José dos Campos), mas comprei meu exemplar na Saraiva, onde saía por R$ 21,00. Devorei o livro em menos de uma semana. Era leitura fácil e eu lia em todo lugar: dentro de ônibus, viajando, no trabalho, em casa... quando terminei comecei novamente mas agora marcando as partes mais interessantes.
Pois esse livro agora virou filme do Walter Salles e com o Gael Garcia Bernal vivendo o Che. E é estranho quando o primeiro livro realmente relevante que se lê até o final por duas vezes vira filme. "Cem Anos de Solidão" eu não sei se virou filme (virou blog...), "O Chão que Ela Pisa" apenas virou música, não sei ao certo qual mais que gostei de ler que virou filme. Não me ocorre. Ou eu li o livro, ou eu vi o filme. Os dois, nunca.
Por isso também quero ver este filme. Sou apaixonado por leitura, pela época histórica em que se passa o filme e pela América Latina. Tenho lá meus diários também, não sobre uma motocicleta, mas à pé pela América do Sul. Sempre fico de escrever essas histórias e nunca começo. O farei em breve.
Tenho medo do resultado porque um livro jamais será passado fielmente para as telas. Entre uma coisa e outra melhor seria que sempre escolhêssemos ler os livros a ver os filmes. Mas com o ingresso mais barato e a dinâmica mais acelerada, duvido que sejam muitos os que prefiram ler os livros. Uma pena pois a fidelidade ao autor deveria ser exigida sempre quando há uma adaptação. Nem sempre é isso que se vê e um dos maiores exemplos é o "Alta Fidelidade" que sempre que encontro alguém que tenha lido o livro me pergunta porque eu ainda não o fiz. Dizem que eu não sei o que estou perdendo e eu acredito nisso. Porém não é sempre que eu tenho grana ou curiosidade suficiente. Culpa do cinema, que além de me forçar a imaginar o John Cusack quando for ler o livro, me dificultou a capacidade imaginativa de sua leitura geral.
A propósito, eis o problema para quem for assistir "Diários de Motocicleta": tentar, quando for ler o livro, desviar o Gael Garcia do Che. E defender a obra do Che do roteiro do Salles.
Deveria haver, além da meia-entrada no cinema, um desconto de 50% na aquisição de um livro pelos estudantes.
Consumado por Daniel às 10:41:15 AM
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Prós e contras:
O bom de voltar a cidade onde se nasceu é poder olhar tudo em volta como um turista, um mero viajante que está ali de passagem e não tem a obrigação de saber rua nenhuma daquele lugar.
O ruim de voltar é perceber que tudo continua praticamente igual com as pessoas ainda muito tristes indo pra cima e pra baixo na cidade como se cumprissem um ritual no qual nao podem sequer olhar pela janela do carro sem isso ser pré-programado.
O bom é saber que se livrou disso.
O ruim é saber que jamais se livra disso.
Consumado por Daniel às 05:57:02 PM
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