Meus primeiros diários de viagem (parte final):

Campo Quijano é uma cidadezinha acolhedora e gostosa de se passear. O Trem das Nuvens é um dos meios que impulsionam o turismo local. É a típica cidadezinha de novela das seis onde aparentemente nada acontece mas sempre tem um governador chegando e um gringo maluco que fica dançando o folclore local para interagir com os novos amigos e jogando bola com as crianças para se divertir e aproveitar sua viagem.

 

“(...) Em Jujuy avisei a Victor de que não poderia entrar na Bolívia por que não tinha passaporte. Ele me disse que o governo ainda não era simpático a seu pai e iria de qualquer forma pois era a chance de visitar a prima que acabara de passar no que eles chama de ‘examén’, o vestibular deles. A irmã do Victor, que é nascida em Manaus e fala português disse que poderíamos entrar por uma cidade um pouco longe de Quialca onde se passa sem passaporte. Aceitei na hora. E se achei que havia visto pobreza no Paraguai, aqui na Bolívia a coisa ainda é pior. Há vários vilarejos de gente muito sofrida entre uma cidade e outra. Geralmente são poucas casas e um raro comércio. Há muita subsistência e sub-vivência.

 

Foi perto de Tupiza que ficamos na primeira carona e dormimos a primeira noite. Estavam fazendo um mutirão de construção de casas e entre um jogo de futebol e muita conversa (enquanto os tijolos secavam) todo mundo estranhou que eu, o ‘gringo brasileño’ tenha me ocupado de ajudar a os outros trabalhadores. Victor seguiu dali para Uyuni. Eu não me arrisquei e voltei rapidinho para a Argentina junto com um pessoal do mutirão. Martin, um dos pedreiros que ia com a gente na caçamba da caminhonete disse que eu dei sorte por terem gostado de mim. Gente com cara de europeu para eles é inimigo. Andar com um boliviano e saber jogar bola e trocar fortes apertos de mão e olhos nos olhos fizeram eles enxergarem que eu não era só um turista. ‘Você é grande, gringo. Inti e Pachamama já viram isso’. E eu achando que isso era coisa de filme (...)”

 

Essa foi parte da primeira viagem. No Paraguai e no interior da Bolívia se vê muita miséria e durante muito tempo. É um povo que sabe que sofre e sabe porque sofre. Cada conversa com um deles é um tapa na nossa cara. E cada vez a gente tem mais idéia do que é não saber de quase nada. Eu ia vendo aquele gente que eu só via na TV e pensava em ajuda-los de algum modo. Juan, Carlos, Fernando, Diego, Marta, Paola, Ariel, Nadia... tantos nomes de gente que conheci. Gente que colocou pra dentro de casa sem saber nada sobre mim além de eu ser brasileiro. Gente muito boa que tem no Brasil e na América toda... gente que eu fico pensando muito em ajudar de algum jeito. Pra retribuir a consciência e ajuda que eles me deram primeiro.



 Consumado por Daniel às 08:15:56 PM
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Meus primeiros diários de viagem (parte 5 de 6):

“(...) Nessa de só falar em inglês, uma menina me entendeu e me explicou como sair da rodoviária. Eu tinha que pegar um ônibus com destino ao centro. Só que o que ela não me explicou é que a linha estava desativada em fevereiro e isso um mulher no ponto de ônibus me explicou depois...resolvi seguir a pé mesmo. Era o que eu ia fazer quando um Ford Ka parou na minha frente com duas meninas. Reconheci minha amiga da rodoviária e ela me falou que ia entrar no Capão Redondo ou Complexo da Maré local. Resolveu me dar uma carona até o centro. Chama-se Constanza Sieburger e  me deu a maior força na cidade.

A cidade é muito bonita. Há uma placa em homenagem a Che Guevara numa praça e muita gente solicita nas ruas. Meu espanhol volta a funcionar. Depois de algumas horas em Resistência, conhecendo suas praças, é hora de voltar à rodoviária. Sem o tal ônibus e agora sem Constanza. O jeito foi ir à pé por uns 3 quilômetros... debaixo de um sol escaldante, com a mochila nas costas e uma garrafa de Fanta Maça que enjoei depois do terceiro gole. Mas cheguei vivo e com tempo de tomar meu ônibus e ir embora para Salta (...)”

Também quebrei a cara com uma promoção na rodoviária quando voltei. Tava lá: “Un vaso de gaseosa y un sandwich de jamón e queso por sólo $3,50.” Achei um excelente negócio, mas quá-o-quê! Era um copinho americano (sujo) de Fanta Laranja (quente) com um misto frio feio e feito com as duas extremidades do pão de forma (o primeiro e o último pãozinho). Chorei de raiva de pagar mó grana naquilo...

“(...) Salta eu sabia como era, porque no Foddors do Victor havia uma referência à cidade. Mas quando desembarquei percebi a sensível diferença que havia do mapa para a cidade. A rodoviária é muito mais suja do que o normal e o pior... aquele sanduíche de ontem está fazendo efeito. O banheiro público é de graça mas pouco recomendado para quem está com dor de barriga: Não há vaso sanitário. Você agacha e tem um buraco no chão. De quando em quando um senhorzinho aleijado e com uns oito dentes convocados para a seleção argentina passa e joga uma mistura de desinfetante em cada buraco. Passado esse primeiro cartão de visitas, logo seguiria para a cidade seguinte que era Campo Quijano.(...)”

 

E lá fui eu...

 

“(...) Para Quijano se toma um ônibus pior do que o que peguei em Ciudad del Este. Mas eu era o único passageiro que saiu desde a rodoviária. O ônibus vai fazendo paradas em locais pré-determinados como a portaria da Cervejaria Quilmes que tem uma filial em Salta. A tradição da cidade é militar e há uma grande base nas cercanias que se chama Ciudad del Milagro. O norte da Argentina foi libertado por um general chamado Güemes e ele tem uma estátua grande na praça central. Quijano é mais interiorana. Aliás, ela é toda interiorana e me lembra Piracaia ou Pedreira. Fui caçar um camping na cidade.  Minha barraca aliás ficou virada para um trecho da pré-cordilheira. Quem montou foi um índio, já que eu nem sabia por onde começar e ele ficava rindo de mim...

 

Naquela semana a cidade iria receber a vista do governador da Província de Salta. A dança folclórica da cidade estava sendo ensaiada na Casa de Folclore e foi lá que aprendi alguns passos e conheci Verónica Villareal que se transformaria na minha guia local. Há uma réplica do primeiro Trem das Nuvens que leva da Argentina até o Chile na praça central. Há uma estação de trem também onde ainda hoje passa o Trem das Nuvens.(...)”

 

Originalmente minha idéia era seguir de Quijano até o Chile. Mas Victor me fez mudar de idéia e encontra-lo ainda na Argentina, em Jujuy. Por isso fiquei mais tempo em Campo Quijano e tantas histórias existem sobre esse lugar. Tudo era com o propósito de dar tempo para meu amigo sair de Mendoza e chegar até o norte da Argentina, no ritmo dele.

 

Verónica me levou para conhecer a geografia do lugar perto das montanhas. Dali, ela foi trabalhar e eu fui parar em um restaurante na rua principal de Quijano. Claro, já estava conhecido na cidade toda. Entrei e vi os preços em uma tabela no local: tinha uma ‘hamburguesa côn papas fritas’. Custava 6,00 e ganhava uma coca-cola. Pedi um e passou a ser meu prato predileto nesse restaurante. Trata-se de um hambúrguer que mal cabe dentro de um prato fundo de tão grande e contornado por batatas fritas gigantes por todos os lados. Mas enfim chegou o dia de seguir para Jujuy e rever Victor. Me despedi e rumei não para o Chile como planejado... mas para Jujuy rever meu amigo. (...)”



 Consumado por Daniel às 04:57:28 PM
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Meus primeiros diários de viagem (parte 4 de 6):

N.A.: Leitores... tive que dividir em seis partes pois apareceram novas anotações que quis muito que vissem aqui e não quis deixar posts grandes e enfadonhos. Espero que gostem.

“(...) Vinha um casal numa pracinha e fui lá incomodar o namoro deles. Perguntei onde ficava a rodoviária e eles não entenderam o que eu dizia. De repente escuto uma voz em português me chamando ‘Oh, cara!’. Achei estranho e dei de cara com um sujeito branquelo parecido com um francês. Perguntei se ele falava português e ele me disse que sim pois passava as férias dele em Camboriu. Seu nome era Diego e ele se prontificou a pagar minha passagem até a rodoviária. Estava indo trabalhar e disse que gostaria de conversar um pouco. Achei esquisito ir trabalhar às 21h, mas enfim... desde que não estivesse me cantando, eu estava no lucro...

‘Trabalho em uma rádio e pego o turno da noite. Nós tocamos música brasileira lá!’ Ia escutando enquanto via a roubada que poderia ter sido seguir a pé até a rodoviária de Posadas. Foram 30min de ônibus até lá. Na rodoviária, Diego me indicou o guichê para comprar o bilhete até Resistência mas só haveria ônibus às 3h da manhã. Foi quando ele me convidou para ir matar o tempo na rádio com ele. ‘Assim você nos esclarece algumas gírias de músicas brasileiras!’. Achei maravilhoso (fora que tinha comida) e aceitei de bom grado. E assim fui parar na Radio Parque 90.9Mhz, Argentina e libre!...  (...)”

Foi realmente muito maneiro passar uma noite na Rádio Parque com meus novos amigos argentinos. Ajudei na programação, tomamos chimarrão a noite toda, Diego me falou dos planos deles para viajar de moto pela América do Sul e eu dos meus de atingir o Chile e assim passamos a noite com mais um pessoal que participava do programa junto com ele. No final, quando deu 3hs da manhã e eu entrei no ônibus para Resistência, sintonizei o walkman na Radio Parque e tive uma surpresa:

“(...) Quando entrei no ônibus e sintonizei a rádio conforme havíamos combinado, escuto a voz de Paulo dizendo assim: ‘E agora uma homenagem ao nosso amigo Daniel que está seguindo em uma aventura que o levará a cidade de Antofagasta. Daniel, sorte! É o que desejam todos seus amigos aqui da Rádio Parque!!!’ E começou a tocar ‘Brasília 5:31’ dos Paralamas, música que eles sabiam que era meu hino na viagem... (...)”


 “(...) A viagem pelo Chaco argentino revela uma paisagem diferente da que vinha tendo pela viagem até aqui. Quase nada de montanhas e vegetação apenas rasteira. Uma cidadezinha de madrugada ainda fez o ônibus parar e despertei de repente. Mas logo voltei a dormir. As estradas daqui são definitivamente muito melhores que as paraguaias. Algumas depois e eu desembarquei em Resistência. E teria sido muito bom se minha conexão para Salta não fosse demorar 10 horas para sair... o que fazer até lá? Ficar na rodoviária é que eu não ia. Comi alguma coisa que eu não sabia o nome e que apenas o vendedor me atendeu porque eu pedi um sanduba igualzinho ao que ele havia acabo de servir... uma refeição e tanto!

 

Aqui é a primeira vez que me sinto longe de casa e por alguns instantes esqueço palavras simples do idioma. Com o branco que me deu, só conseguia me expressar em inglês e por isso diminui as chances de sair da rodoviária. A cidade é um pouco longe do terminal e não quero ir parar na barra pesada daqui. Pode não ser Buenos Aires, mas também não é mais a pacata Posadas... (...)”

 

Realmente foi um dia horrível. Ninguém aceitava dólares na cidade e tive que trocar 20 dólares por 20 pesos. Consegui trocar rápido e quando me sentei, me dei conta de que eu não sabia se estava trocando moeda verdadeira. Vinha um militar argentino e o perguntei como diferenciar as notas falsas de pesos. As verdadeiras tem o valor sensível a luz e ficam mais escuro. Fiquei mais calmo e liguei pra casa. Minha mãe atendeu e perguntou como estava tudo em Peruíbe... disse que estava ótimo e pedi pra chamar meu irmão. Ele me ajudou a me acalmar e a tentar reaprender meu espanhol: “Cara, você já tá aí... vê até onde dá, seu maluco!”. É... a melhor coisa a fazer era ver até onde dava pra ir. Nada de voltar.



 Consumado por Daniel às 05:35:04 PM
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Meus primeiros diários de viagem (parte 3 de 6):

 

“(...) Fiquei em Encarnacíon esperando o ônibus e um menininho chegou perto de mim oferecendo balas. Disse que não queria. Ele me perguntou em inglês. Então me agachei e disse que era brasileiro. Ele falou que era mentira, que os brasileiros eram negros e eu devia ser inglês. Dei um sorrindo e perguntei o nome dele, quando me disse que chamava Daniel, convidei-o para ficar conversando. Me disse que tinha 9 anos e que não estudava para ganhar um dinheirinho para sua mãe. Achei muito clichê e sabia que o sabichão queria era me quebrar o coração e vender uma bala. Reparei que todsas as crianças paraguaias usam um uniforme bem parecido em qualquer escola e ele não estava usando esse uniforme.

 

Daniel deu aquele sorriso com janelinha e tudo e ficou olhando pra cima mexendo a cabeça. Comprei uns doces dele e dei 2 dólares. Um vagabundo que fica trocando dinheiro na rodoviária chamou o menino e trocou o dinheiro dele por muito menos do que valia, por uns poucos guaranis. Chamei o homem que estava sentado e começou a falar em inglês comigo. Disse que eu era brasileiro e que devolvesse ao menino o dinheiro que eu tinha dado. Ele trocou pelo valor correto e ficou intimidado pela antena do celular que apontava para ele desde o meu bolso. Daniel tinha um herói brasileiro ali. Mas já no dia seguinte ia ter que mentir novamente para continuar sobrevivendo (...)”

 

Nesse dia eu tremi de raiva. O Paraguai me pareceu um lugar onde as contradições estão ainda mais presentes e o povo tenta que tirar proveito de gringos trouxas que passam por ali. Tentaram me vender um busto de uma deusa guarani, falaram que tinham encontrado um chumaço de dólares e que queriam dividir comigo... muitos golpes desses mais manjados. Pena das crianças que crescem assim por culpa de um país pobre e de governo instável. No Brasil ainda temos uma parte da população que é remediada. Lá, ou se é rico, ou se é pobre.

 

“(...) Quando deixei Encarnacíon já beirava as 20hs e estava realmente assustado com a possibilidade de não conseguir um lugar para dormir. Atravessamos o rio Paraná. Eu vinha negociando de acampar de graça no quintal de um argentino que conheci na travessia. Descemos na aduana para revista de bagagens e a minha mochila foi a última. Quando voltei, qual não foi minha surpresa ao ver que o ônibus tinha partido. Entrei a pé em Posadas, umas 20h45, com medo de ser assaltado. ‘Isso aqui não é Buenos Aires’ me tranqüilizou um homem que encontrei na travessia. (...)”

 

O lugar era realmente tranqüilo. Não havia porque me assustar, mas sozinho pela América do Sul, à noite, com 21 anos de idade e sem ter nunca saído do país antes, era algo que realmente assustava. A fome começou a bater e nunca chegava na rodoviária de Posadas. Estava mais uma vez ao deus-dará. Mas segui em frente.



 Consumado por Daniel às 11:14:29 AM
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Meus primeiros diários de viagem (parte 2 de 6):

“(...) Logo que saí fui comprar uns poucos mantimentos para a seqüência da viagem e almoçar bem para que pudesse ficar a maior parte do tempo sem comer alguma coisa. Essa parte da viagem tende a ser a mais empolgante pelo que está envolvido: sair do país, mudar de idioma, aprender uma cultura... estou falando espanhol desde que encontrei o Victor e por isso está mais fácil. Pior é quem não sabe nada no idioma. Foi o caso do rapaz que encontrei na quitanda comprando um refrigerante. Estava com uma camisa do Newcastle e eu perguntei se ele era inglês. Era australiano e iria fazer o mesmo caminho que eu. Quando soube, me convidou para companhia e já ia chamando um táxi quando disse que havia ônibus que cortava a Ponte da Amizade. O nome dele era Harrison e cruzamos a fronteira falando sobre colonização. Ele me falando da Austrália e eu do Brasil. Quando vimos, havíamos passado pro lado paraguaio sem apresentar passaportes na aduana. Gritei para a trocadora abrir a porta e deu tempo de voltarmos a pé. Harrison carimbou seu 31o. país no passaporte. Quem sabe um dia eu não chego lá. Ele ia para Assunção e eu para Encarnacíon. ‘Estou um trecho da Bíblia a sua frente’, brincou.

Demorou um pouco para chegar meu ônibus e fiquei irritado. Fui perguntar o que havia acontecido na bilheteria e me informaram que o errado era eu, pois no Paraguai o fuso horário é de uma hora a menos do que em Brasília. Refeito do papelão vi meu ônibus encostar: era um ônibus desses 1960, com banco de couro rasgado e tipo cata-doido... ia de tudo, desde galinha até gente. O motorista parava a viagem para cantar mulheres na rua. Aqui é o Paraguai... lugar novo e aparentemente encantador, embora muito pobre e atrasado. Ao menos em relação a Brasília. (...)”

 

Harrison e eu ainda dividimos um táxi até a rodoviária de Ciudad del Este, assim que fugimos da multidão que fica vendendo seus produtos nas proximidades da aduana. Há muito contrabando e muito crime pequeno que acontece ali e nossa preocupação era sair o mais rápido possível. Pegamos um táxi e me senti num mercado árabe. O preço começou com 10 dólares e no final ficou por 4 dólares e uma lata de refrigerante. Rumo à rodoviária!

 

“(...) A pobreza que você vai vendo durante o trajeto é mais um tapa na cara. Pensei na guerra do Paraguai e todas as suas conseqüências para os dois lados da América do Sul. Nós, endividados e eles arrasados. Há um sentimento forte de patriotismo no ar... em cada posto de gasolina que passamos existe uma bandeira paraguaia, mesmo que rasgada. O asfalto daqui é impregnado com terra e isso faz da estrada um traço vermelho. No caminho, que surpresa! Todos começam a ficar loirinhos e descubro que há uma colônia alemã ali perto. Trabalham na extração de mate. Joana, uma menina que fica curiosa comigo é quem me fala a respeito numa parada. Aliás, a cada parada muitas crianças entram no ônibus e oferecem empanadas e salgadinhos para os passageiros. Eu, com meu ar europeu sou o principal cliente, embora nada compre. Joana dá risada e vai com seus pais pro fundo do ônibus. Há muitas crianças uniformizadas... pelo menos estudo público há. E emprego também... mas não perguntem quanto pagam e nem como é o ensino. (...)”



 Consumado por Daniel às 11:40:28 AM
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Meus primeiros diários de viagem (parte 1 de 6):

“(...) Tudo tinha que sair perfeitamente bem para que quando eu saísse daqui de Santos rumo a Foz do Iguaçu, minha mãe nem desconfiasse de onde o filho dela estaria indo. Por isso falei pro meu irmão depositar o mínimo de dinheiro pra mim no banco. Assim ela pensaria apenas que estou no máximo em Peruíbe, quando na verdade vou conhecer uma parte dessa imensa América do Sul! (...)”

 

Foi assim, em fevereiro de 2000 que comecei minha primeira viagem pelo continente. Um trajeto fácil do ponto de vista geográfico e complicado de ser feito com 120 dólares na carteira. Ida e volta. O dinheiro só bateu na minha conta horas antes de eu desistir da viagem... e por isso mesmo eu julguei que seria o início de uma aventura que pra mim não ia terminar mais... vou compartilhar com vocês alguns trechos do diário para que vejam o quanto pode ser apaixonante essa viagem.

“(...) Quando saímos do Parque, Victor me perguntou se eu já sabia onde dormir. Me lembrei da Manuela que disse que ficaria em um hotel perto do zoológico e disse que era o que eu faria. Ele falou que sairia muito caro dormir em um hotel e me  chamou para dividir um quarto de albergue com ele. Disse que havia conhecido uma guia turística peruana que nos indicaria um bom lugar. E assim fomos até o terminal urbano de Foz. Logo que descemos, minha feição européia aguçou os instintos daquela criançada que estava ali vendendo balas e doces. Victor também foi alvejado por crianças pedindo dinheiro. Foi a primeira vez que sentimos o abandono de tanta criança ao mesmo tempo aqui em Foz. Saímos para procurar Paola, a peruana namorada do Victor e ela não estava mais lá. Quem nos atendeu foi um menino de uns 14 anos que por US$ 1,00 aceitou nos guiar até um albergue (...)”

Todo mundo tem um pouco de Che em “Diários de Motocicleta”. Na primeira vez que saí do país eu o fiz com pouco mais de 100 dólares. E percorri a faixa norte da Argentina e do Chile. Sou mochileiro e apaixonado pela América do Sul. E quando se é idealista, uma viagem dessa realmente transforma você. Victor Valencia era um boliviano que vivia na Suécia por conta de motivos políticos de sua terra natal. O pai, intelectual do país, conseguiu asilo por lá para ele e sua família. Conheci o Victor durante um passeio pelas Cataratas. Fizemos amizade, conversamos sobre muita coisa e tudo isso está em minha mente até hoje, como se estivesse em um diário mesmo.

 

“(...) Dona Anísia se despediu da gente como se estivesse se despedindo de dois filhos. Saímos da pousada ainda com o sol muito forte e caminhamos até o Batalhão do Exército. O ônibus que os argentinos indicaram vinha vindo e eu me despedi por hora do meu amigo. ‘Te vejo em Jujuy’, ele me disse. Demos um abraço e Victor seguiu rumo a Paysandu no Uruguai. Eu ainda fiquei um pouco na cidade antes de pegar o ônibus para Ciudad Del Este. (...)”

 

Victor estava viajando com uma bolsa da Universidade de Malmoe. Ele é engenheiro na Suécia e ganhou a viagem para a América do Sul. Acho que todo mundo de classe média tinha que fazer uma viagem dessas e não é uma visão fútil a que estou tendo. Não falo de turismo e sim de viagem a troco de conhecer as pessoas e querer viver o perrengue delas. Por isso a pouca grana e a improvisação. Teve um dia em que dividimos uma marmita, pra se ter uma idéia. O que nos movia? “La passión por la ruta”. E a necessidade de conhecer melhor esse gigante continente de contrastes.



 Consumado por Daniel às 11:24:48 AM
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