Combater a pirataria é combater a concentração de renda:

Há algum tempo o José publicou o post “Artesanato Carioca” (27.06.2004) falando sobre como era frustrante chegar no Rio de Janeiro e encontrar barracas que vendem produtos pirateados (e realmente é.). Antes do próximo parágrafo gostaria de ressaltar que não apóio a pirataria como maneira de ganhar a vida. Mas também não apóio que 50 milhões de brasileiros vivam abaixo da linha de pobreza, que com 4% da renda brasileira a gente acabaria com essa miséria e ninguém faça nada, que sejam dados aumentos sobre aumentos para classes determinadas e aumento de impostos para sanar dívidas do povo. Mas isso tudo existe, está aí e basta abrir o jornal para se deparar com essa realidade. Ao meu ver a pirataria acaba forçando a indústria a baixar preços para tentar competir contra os falsificados. É uma espécie de redistribuição de renda e é aqui que ela mais se parece com uma Revolução Francesa da vida.

 

Pra quem não sabe, a França vivia sob uma concentração de renda ainda mais mesquinha que a brasileira no final do século XVIII. Muito poucos viviam na França e muitos viviam como se vive hoje em... Bangladesh. O povo faminto derrubou a monarquia e fez a reforma burguesa. Hoje é tido como um movimento heróico; mas terá sido assim à época da revolução ou os populares que marchavam rumo à Paris eram tão criminosos quanto os camelôs de hoje em dia? Será que uma pessoa escolhe ser camelô hoje em dia porque nasceu para aquilo? Ou é necessidade de ganhar um dinheiro o mais perto do honesto que ela pode? Quem somos nós pra esculachar um camelô na rua? O cara é antes de tudo um bravo: mora nos morros, veio do Nordeste atrás de trabalho, pode entrar pro tráfico e mesmo assim – sorrindo – vai vender as muambas dele pra ganhar o quê? R$ 300,00 pra sustentar a família. Claro que tem os coisa-ruim, sempre tem... mas isso tem até no Distrito Federal, não justifica.

 

A renda do brasileiro é baixa e aí é que está o problema da pirataria. Se você ganhasse o suficiente para comprar um CD duplo do Paralamas do Sucesso na loja porque gastaria em uma barraquinha de camelô? Se ganhasse pra pagar o cinema, porque gastaria comprando o DVD pirata. Aqui no Rio o cinema pode custar até R$ 15,00 por pessoa! Até mesmo um fast-food... se você ganhasse pra comprar um Big Mac ou uma Pizza Hut, porque iria se aventurar ali no Cachorro-Quente-do-Tiozinho? E distribuindo a renda é evidente que haveria crescimento e os camelôs teriam oportunidades reais de trabalho. Pagando imposto. Aliás, muito imposto. E aqui está outro problema. Muitas vezes o produto nem é tão caro mas emperra na burocracia (burro-cracia) nacional. Meu Deus do céu, pra onde é que vai o dinheiro de tanto imposto? Cadê os bons hospitais? A infra-estrutura na Universidade Pública? A reforma agrária efetiva? Tudo está interligado... vergonhosamente interligado. Pra registrar um trabalhador no Brasil leva-se meses; na Nova Zelândia, dois dias.

 

O acesso a cultura não pode jamais ser limitado. A classe média caminha para definhar em nosso país se a coisa continuar assim. E somos nós, gente! Daqui a pouco ninguém mais pode adquirir nada tamanha a exclusão de consumo. Não se pode falar em inclusão se não se garante renda. E renda pra muito mais do que pra comprar CD, DVD e tênis da moda. Hoje é isso. Amanhã pode ser faculdade, curso de idioma e até comida. “Allons enfants de la Patrie...”



 Consumado por Daniel às 11:24:26 AM
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Exploradores de Cavernas:

Um grupo de exploradores de cavernas se vê preso durante uma expedição e após vários dias sem mantimentos a fome começa a apertar e eles fazem um jogo para decidir qual deles deve morrer para que os outros se alimentem enquanto o resgate não os alcança. Decidido isso, matam o escolhido comem seu cadáver e são retirados com vida da caverna. Vão a julgamento em um tribunal que prevê que quem tira a vida de alguém deve ser condenado à morte. Mas... e quando parece haver uma exceção à regra jurídica?

 

Esse é o conflito do livro “O Caso dos Exploradores de Caverna”  de Lon L. Fuller (R$ 12,00) que li faz pouco tempo aqui em casa. Encontramos o livro durante a arrumação da mudança, mas só agora eu peguei para ler e não sosseguei até chegar ao final. Até que ponto podemos considerar que os exploradores de caverna assassinaram como delito? E como necessidade de sobrevivência? Devem ser condenados à morte ou sofrer sanção mais leve por conta da condição que os levou a matar?

 

Uma série de defesas e acusações vão dando margem ao debate. Os juízes do local em que vale essa lei levantam as questões morais e legais para condenar e defender a atitude tomada dentro da caverna em uma discussão que embora simples num primeiro momento: “não condenar à morte” pode acabar transbordando para uma selvageria digna de pena de morte. O leitor, é claro, é tomado por sua opinião logo no começo da fábula quando os fatos são apresentados e dificilmente mudará seu ponto de vista ao final do livro quando os exploradores de caverna recebem seu veredicto.

 

“O Caso dos Exploradores de Caverna” é mais do que uma possibilidade jurídica. Na ocasião de um acontecimento dessa grandeza, vários defensores invocarão preceitos filosóficos para justificar a ação dos homens que cometeram o assassinato. Outros tantos, para condená-los, sairão à caça de  suposições dentro da mesma linha de raciocínio dos defensores. O livro, mais do que simplesmente obrigatório para estudantes de Direito, também é obrigatório para qualquer um que procure um conflito polêmico para discutir com amigos.

 

Você condenaria o grupo de exploradores de caverna? Procure ler o livro para ver se sua opinião será mudada com os argumentos de persuasão de defesa e condenação dos juízes do local onde vivem esses desafortunados.



 Consumado por Daniel às 10:15:52 AM
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Alma carioca:

A segunda-feira amanheceu sem o post por um motivo muito bom para mim. Uma surpresa aliás. Tudo começou no sábado quando fomos a um casamento de uma prima da Dani e terminou quando voltando pra casa um recado da secretária eletrônica de um amigo meu dos tempos de CTA. Ele estava no Rio e queria dar um passeio. O dia que ele teria disponível seria a segunda-feira. Eis o motivo da falta do post.

 

Claro que a coisa não se resume a isso. Fui encontrar meu amigo na Central do Brasil e meu objetivo era leva-lo para dar um passeio pelas paisagens que eu considero mais bonitas do Rio. Uma pena que chovendo, muita coisa ficava restrita como a paisagem da praia, por exemplo. Mas fizemos um tour e descobri meu lado mais apaixonado por essa cidade que encanta, adota e cativa quem aqui resolve morar. Meu caso de amor com o Rio de Janeiro é um dos mais felizes do mundo. Adoro o povo daqui, a cultura, as paisagens naturais o lado histórico, o centro velho, a música (O Rappa, Marcelo D2, Los Hermanos, Zeca, Blitz etc)... até os gringos que compõem o ambiente quando não resolvem estragar tudo abrindo a boca. Do camelô à socialite, do morador de rua aos emergentes da Barra tudo parece se completar nesse caos organizado. É sem dúvida a mais bela cidade em que já botei meus pés.

 

Visitamos os Arcos da Lapa, meu lugar favorito entre as obras humanas da cidade, a Biblioteca Nacional, a Academia Brasileira de Letras, o MAM, a Igreja da Candelária, o Panteão de Caxias e o Museu da Segunda Guerra que fica no Aterro. Minha idéia era ainda passear com ele por outros pontos da cidade mas foi quando a chuva apertou. Ainda deu tempo de tirar foto da Baía de Guanabara e da Ilha Fiscal, onde o Império realizou o último baile antes da proclamação da República. Na Cinelândia estava havendo a transmissão de um programa ao vivo da Rede Record sobre a vitória judicial na história dos planos de saúde. O povo estava chutando baldes na praça do Teatro Municipal. Aproveitamos para chutar nossos baldinhos também. Esse trecho da cidade é parte da minha infância. Ali, quando ia com meu pai na Caixa, saíamos para tomar sorvete na Leiteria Mineira. Deu saudades...

 

Hoje, a cidade cabe na minha mão. Tem muitos problemas por causa da judiação por parte de políticas irresponsáveis que culminaram no inchaço desenfreado das regiões periféricas e na crescente taxa de pobreza da população. Ainda assim há ali um nicho cultural capaz de fazer a cidade parar durante as festas de Carnaval. Além disso meu time de futebol é um time carioca e nada melhor do que estar bem pertinho do Cristo Redentor pra procurar estar sempre em paz, mesmo que em território de guerra. E eis nosso grande problema por aqui. Apesar da grande miscigenação o carioca é um cidadão que vive com medo. Em alguns casos isso agrava o problema da discriminação e aí é triste. Porque o Rio de Janeiro merece que as pessoas que aqui estejam sintam-se tão bem quando esteve meu amigo.

 

A violência e o turismo sexual têm que deixar de ser a vitrine embaçada que cobre a cidade. Há muito mais a se descobrir dessa cidade e os que me lêem e ainda não conhecem estão convidados a vir aqui e descobrir que muito da violência que dizem existir é fruto de campanha mentirosa. A cidade é linda e acolhedora. O que mais periga de roubarem de vocês aqui é o coração. Quando se visita o Rio, os outros lugares passam a ser apenas os “outros lugares”.



 Consumado por Daniel às 09:39:44 AM
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Telemarketing:

Você conhece algum assistente de telemarketing? Se conhece, já teve curiosidade de perguntar se eles são treinados para serem extremamente passivos ao que recebem de informação de seus chefes ou se aquilo está presente em seu RNA-transmissor e é algo que pode ser passado de geração em geração? Sinceramente vivemos a era dos maus atendimentos de telemarketing. E da péssima legislação que o rege e que admite absurdos como os que descreverei aqui.

 

Uma vez a Dani e eu estávamos no maior papo sobre isso quando eu perguntei se ela imaginava porque a Visa tinha vindo para o Brasil. Disse que claro que não pode ser pelo lucro. A gente recebe em Real que, cá entre nós, não é moeda de troca nem de Roraima pra cima e nem do Chuí para baixo. Mas, se não foi pelo dinheiro, foi pelo quê? Obviamente pela legislação falha de nossos sistemas. Pela fragilidade de nossa sociedade de consumo com padrões americanos e com leis do século XIII. Não se espante se qualquer dia vier em sua fatura do Visa, do MasterCard ou qualquer desses uma cobrança de derrama. E o mesmo se aplica a outras empresas de luz, gás, telefone, SAC...

 

Serviços da Telefônica, por exemplo... uma vez eu telefonei  e pedi o telefone de Donald Duck. Soletrei o sobrenome, claro. Quando me pediu a cidade, prontamente respondi: Patópolis. Coisa de alguns minutos depois e meu atendente me disse que não havia o nome do assinante na cidade mencionada. Fui procurar em um minucioso mapa de São Paulo e achei Porangaba, Brodowski, Piquete, Buri... mas Patópolis não existia. Quer dizer, além de procurar mesmo por Donald Duck meu amigo havia feito isso com tamanha insistência que conseguiu encontrar uma Patópolis sem sequer se tocar que se tratava de um teste. Alienado? Do resto das coisas com certeza. Parece um hamster que só sabe fazer aquilo.

 

Com a gente aconteceu parecido dia desses. Compramos com o cartão e cancelamos a compra; ótimo. Fomos comprar em outro lugar e ficamos sabendo que a compra cancelada ainda não havia saído do cadastro e isso nos limitava o uso do cartão. Toca a Dani ligar pro Visa e perguntar o que tinha acontecido. A atendente disse que isso pode levar 10 dias úteis! Mas que se a loja em que cancelamos a compra pedir caráter de urgência, tudo é resolvido em duas horas... vejam vocês: Se pode ser resolvido em duas horas (e pode!) qual é o problema dessas pessoas em deixar tudo pra 10 dias úteis??? Ter cartão de crédito, no Brasil, parece ser assinar atestado de burrice. E isso porque a anuidade para contar com os “serviços” é extremamente cara. E isso em um cartão cujo slogan é “A vida é agora”. Ou daqui dez dias úteis.

 

Por isso meus caros atendentes de telemarketing, reflitam: vejam o rumo que estão escolhendo ao ficar colocando musiquinha de  “No No Nanete” e não saber de verdade sair de uma situação que muitas vezes não é você quem cria, mas por fim você aceita sem argumentar. Dê alternativas aos seus chefes sobre os serviços. Não seja uma pessoa que pensa com os neurônios dos outros. Ficar alienado no trabalho trás isso pra vida privada. E em um país de sistemas burros, o povo não deve seguir a mesma estrada.


Apostadores do bolão: Gente, vamos dar mais tempo para que as pesquisas sejam feitas; segunda-feira que vem o resultado já deve ser mais emocionante! Abraços a todos.



 Consumado por Daniel às 12:48:42 PM
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