 |
Quase como nossos pais:
Estamos em 1950. Dois jovens vêem o sol nascendo e estão conversando, quando um pergunta onde o outro estava quando a bomba atômica caiu no Japão. Damos um pulo no tempo, estamos em 1971-72, dois jovens estão num acampamento observando a lua e um resolve entrar no assunto de onde o outro estava quando Neil Armstrong pisou na Lua. Mais uma elipse de tempo e vemos duas pessoas, hoje, caminhando pela selva de pedra da cidade e perguntando um ao outro onde estava quando o World Trade Center foi atacado por dois aviões. Eis nossos avós e nossos pais e por fim, nós.
Das curiosidades sobre os acontecimentos temos o momento político, peculiar de cada um: O final de uma guerra que unira Estados Unidos e Europa (inclusive a URSS), logo depois a corrida espacial e a Guerra Fria contra a própria URSS e por fim um tipo novo de guerra, que não é fria e tampouco contra outro Estado em particular, é contra o terror. Cada uma trouxe sua doutrina, sendo que a última, a Bush determinou um eixo do bem e outro eixo do mal.
Na Segunda Guerra, era a Tríplice Entente contra um eixo realmente existente, com uma Alemanha extremamente forte; Depois, na Guerra Fria, o eixo do mal eram os comunistas, ricos em tecnologia e espionagem, comedores de criancinhas, fabricantes de mísseis nucleares e assassinos de James Bond. Hoje é Saddam Hussein, presidente de um país em frangalhos e Osama Bin Laden, mulá Omar e o líder norte-coreano que nem sei tem nome. Osama e Omar vivem numa terra que, se barbariza a população, foi covardemente atacada pelas forças americanas e britânicas. Os coreanos mal têm o que comer e ficam brincando de War com gente de verdade.
Em 45, Roosevelt foi aliado de um forte Winston Churchill, e de ninguém menos do que Stálin. Durante a Guerra Fria, o aliado americano era representado pela "Iron Maiden" Margareth Tatcher, mulher de pulso forte e de decisões importantes no quesito Europa, e o inimigo nem sempre foi tão inimigo, visto que na pele de Gorbatchev era mais aliado do que inimigo de Ronald Reagan. Hoje, temos um borra-botas na Inglaterra, um idiota nos Estados Unidos, testa de ferro de Dick Cheney e passamos a torcer pelo inimigo, assim, descaradamente.
A China apenas batia palmas em 1945. A China, em 1971-72, só batia palmas. A China, em 2004, continua batendo palmas, apenas. Em 45, nós éramos o país do futuro; em 71-72, o país do futuro. Hoje, somos o país do futuro. Em 45, o Empire State era o maior prédio de Nova Iorque. Em 71-72 corria o risco de perder a coroa, mas ainda era, inaugurado, o maior prédio de Nova Iorque. Hoje em dia, é o maior prédio de Nova Iorque.
Por fim, em 45 os americanos eram os vilões. Em 71-72, os heróis. Há dois anos, foram as vítimas. Sinais de um império que ameaça desmoronar. Sinais que, refletidos nas comparações feitas, mostram que se os Estados Unidos por um lado estão com lutando com inimigos cada dia mais fracos, por outro lado mostra que isso não é realmente uma boa notícia para quem governa por lá.
Consumado por Daniel às 09:37:09 AM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A natureza do ato:
No começo do mês o mundo foi abalado novamente pela ameaça terrorista que está presente em toda parte do globo. Dessa vez aconteceu na Rússia e supostamente foi um grupo ligado à rede de terroristas da Chechênia que é uma república dentro da Rússia. Foi o mais chocante acontecimento desde o atentado de Madrid em março desse ano e o que mais comoveu a opinião pública. Primeiro porque eram crianças que estavam sendo mantidas reféns; segundo que a ação dos militares foi extremamente estabanada, feita de improviso, controvertida e imprópria para a ocasião. Dizem que havia até civis armados lutando contra os raptores.
A tragédia que terminou com 350 mortos, entre eles muitos corpos de crianças, correu o mundo e nos questionou novamente qual a dimensão do perigo que representa os atentados terroristas. Especialmente para nós, que moramos nos países pobres. Sim porque quando os ricos tiverem usado mais do que o PIB do Brasil apenas em segurança, serão as minorias de países menos protegidos que eles virão atacar. Assim como algumas empresas procuram brechas legislativas atraentes para atuarem nos países pobres, os terroristas procurarão falhas de segurança. Deus queria que esse dia nunca chegue.
Apesar de covarde, o terrorismo acaba representando uma resposta natural à nossa maneira de compreender, vivenciar e passar adiante o mundo, enquanto sociedade – principalmente a capitalista. Eu imagino que tudo tenha começado com o primeiro ato de intolerância e a primeira propriedade dita privada para isolar aqueles que acreditavam em “x” dos que acreditavam em “y”. Claro que não dá pra se ter consciência de uma forma de vida capitalista mas se entendermos a sociedade como um organismo, o meu exemplo é uma ameba. Nós, um corpo humano. A complexidade da situação torna a reação igualmente complexa. Nos dias atuais, o terrorismo.
Sou contra qualquer forma de covardia, desde aviões jogados contra o maior centro financeiro do mundo até gente morrendo de fome nas areias de um deserto. Os dois extremos são ligados por uma linha que nada mais é do que uma liga de política, dinheiro, fé, racismo, imposições. Política e financeiramente temos o exemplo mais claro na disputa por petróleo; a intolerância religiosa se mostra em vários países entre várias formas de se chamar Deus. O racismo é uma das maiores formas de ignorância que podemos demonstrar. É maior que o termo, é xenofobia. Imposição é mais um resultado do que uma vertente disso tudo. Quem impõe, impõe com algum interesse; quem aceita, aceita porque é mais cômodo.
Somos os únicos seres que delimitam espaços territoriais coletivamente e também os únicos que se exterminam conscientemente. Essa mistura torna-se perigosa e inflamável quando uma faísca de interesse lhe dá vida. Qualquer outro ser consegue viver harmonicamente com seu nicho. Se dependêssemos apenas de nossas forças, teríamos entrado em extinção há muito tempo. A evolução quis que nós raciocinássemos para conseguir sobreviver. Mas cada vez que eu me lembro que o mundo hoje faz a gente desconfiar de outra pessoa apenas por ela usar um turbante ou andar só de havaianas, questiono se já nos tornamos verdadeiramente racionais ou se somos uma praga.
Consumado por Daniel às 10:46:24 AM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O maratonista:
Apesar do apoio maciço que recebeu, eu pessoalmente não vejo nada de grande esportista em Vanderlei de Lima por ele ter completado a maratona depois de ter sido sacaneado por aquele padre irlandês e ainda tido tempo de conquistar a medalha de bronze. Logo depois o COI e a IAAF concordaram em lhe dar a Medalha Pierre de Coubertin, um broche que significa o máximo grau do “importante é competir”. Bah.
Em primeiro lugar, a lição número um que se tira disso tudo é que apesar de adorar fazer isso ninguém pode mais ficar malhando uma olimpíada carioca com algum discurso que comece com a seguinte frase “se fosse no Rio de Janeiro...” e isso é ótimo. A festa da Olimpíada foi magnífica, os gregos tinham o que mostrar mas no final esculhambou tudo, foi tudo pelo ralo por causa da segurança ridícula oferecida aos atletas. Sim, tudo isso por causa de um incidente, afinal de contas se em Sydney usava-se o termo “Olimpíada verde”, em Atenas foi usado o termo “Olimpíada da segurança”. E se fosse um militante do ETA? Todo mundo já pensou nisso em casa depois do ocorrido.
A segunda lição que se tira é a de que a mais pura realidade é que fanatismo não presta em nada que se faça na vida. Quando se trata de fanatismo religioso então, Deus me livre! E isso vale não só para os muçulmanos, mas para todas as religiões. Aliás se tem uma coisa boa que se tira disso é o estigma de que muçulmano é terrorista. O irlandês era cristão, senhores... fanatismo é fanatismo em qualquer canto e sob qualquer denominação divina.
A terceira é que nós, brasileiros, aceitamos com muita facilidade tudo aquilo que nos é imposto. Não bastasse comemorarmos décimos lugares em esportes exóticos aos olhos da massa, ainda aceitamos de bom grado que as meninas do futebol tenham sido roubadas escandalosamente em um pênalti no primeiro tempo da prorrogação e aceitamos muito bem a Medalha Coubertin como compensação ao Vanderlei. Eu quero saber o seguinte: se o COI acata que Taiwan desfile sem a bandeira do país por imposição da China, qual é o problema em acatar que houve uma falha da organização e compensar dignamente o maratonista brasileiro? Os chineses têm mais influência que o COB, então? Partindo dessa suposição, e se o maratonista fosse então... americano? Inglês? Belga?
O critério usado anteriormente ao Vanderlei para a entrega de uma medalha desse porte é completamente diferente do caso que aconteceu com o brasileiro. Se ele tivesse vencido a prova, a quem ocorreria lhe conceder o prêmio? Vencer a prova faria dele mais ou menos merecedor do mérito do COI? É por não ter as respostas para essas perguntas que eu me pergunto porque o alvoroço em torno de um homem que foi prejudicado e aceitou isso. Vanderlei é hoje o símbolo do que o Brasil tem de melhor quando visto pelos olhos internacionais: é dócil. O brasileiro é como o escravo dócil que cuida dos filhos do senhor de engenho e por este é desprezado. O bom cabrito que no dito popular não berra.
Mais correto seria não ter ido receber a medalha.
Consumado por Daniel às 12:06:38 PM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Caros amigos,:
Ao contrário do que possa parecer e do que meu caráter demonstra eu não sai do país durante esse período de hibernação. Pra falar a verdade eu não saí do Rio de Janeiro e por muito favor dei uma ou duas voltas além dos limites do meu bairro. O retiro foi necessário para a mente, no campo intelectual especificamente. Claro que gostaria de ter ido fazer uma boa viagem por aí... uma pena que nem me passou pela cabeça isso. Não por falta de planejamento ou por não haver dinheiro (conforme não há). Mas por falta de necessidade.
Não se desapontem, porém. Não perdi a forma e nem me passou pela cabeça largar de lado o meu espírito de aventuras. Não fui consumido pela lei do menor do esforço, não dessa vez. Mas o blog consumia uma parte do meu dia que apenas estaria trocando pela viagem e não era esse o caso. Não havia uma necessidade do tipo: “Suderj informa: substituição: sai blog e entra viagem de mochila”. Era algo mais introspectivo e que eu garanto que em nada afeta o dia-a-dia de vocês mas que, para mim, faz toda a diferença.
Conforme prometido aqui estou de volta, com vários novos assuntos para tratar e pretendendo dar uma nova dinâmica ao blog. Para começar, com o objetivo de chegar mais perto de cada um, vou diminuir o número de postagens semanais para as terças, quintas e sábados. Não, não me tornei estrelinha e tampouco considero vocês como um público homogêneo que mereça essa minha imposição. Mas o fato de eu gostar de escrever e adorar ler e discutir os comentários me fez tomar essa decisão para que eu consiga manter tanto o blog quanto as outras atividades. Na verdade acaba sendo até melhor porque dá mais tempo de mais gente se interar do que está sendo tratado e mais opiniões serem dadas sobre cada assunto.
Então, estamos combinados assim a partir de amanhã. A hibernação trouxe quase que exatamente o que eu esperava dela. E que bom que sempre tinha alguém no blog durante esse período. É a maior prova que não se trata de público homogêneo mas de cada um com sua importância singular aqui por entre as (humildes) letras.
Consumado por Daniel às 06:58:15 AM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|
 |


|
 |